Ao longo dos seus 72 anos de história, o calendário da F1 tem evoluído constantemente, passando de apenas sete corridas em 1950 para 23 em 2022, ou mesmo 30, se a atual frenética expansão continuar. Como resultado, este desporto enfrenta hoje várias contradições.
A Fórmula 1 está passando por um renascimento: os campeonatos recuperaram o entusiasmo, os espectadores lotam as arquibancadas e cada vez mais países disputam uma vaga no calendário. A aquisição pela Liberty Media, após quatro décadas de controle rígido de Bernie Ecclestone, deixou marcas.
Nesse contexto, a temporada de 2022 será a mais longa e exigente já organizada, com 23 Grandes Prêmios no programa. No papel, isso parece ser um sinal de que o esporte está em boa saúde, mas, olhando mais de perto, percebe-se que alguns dos valores defendidos hoje pela elite estão comprometidos, especialmente no que diz respeito ao calendário das corridas.
Dois pesos, duas medidas em matéria de direitos humanos Mesmo antes do início da temporada, o conflito na Europa Oriental – a incursão da Rússia no território ucraniano – obrigou ao cancelamento do Grande Prémio da Rússia e obrigou os seus pilotos a correr sob uma bandeira neutra. Isso levou à saída de Nikita Mazepin da F1 e de G-Drive e Daniil Kvyat do WEC. A F1 reagiu rapidamente, sem dúvida usando sua plataforma para promover a paz. No entanto, essa decisão suscitou outro debate: se a Rússia é excluída por sua agressão, o que dizer do Catar e da Arábia Saudita? Esses países dispõem de instalações suntuosas, circuitos impressionantes e, acima de tudo, do apoio dos petrodólares. Sem esse dinheiro, o circo da F1 provavelmente nunca teria pisado no Oriente Médio.
Numa altura em que as organizações defendem a inclusão, não só étnica, mas também sexual, Lewis Hamilton mostrou claramente a sua posição ao usar um capacete com as cores do arco-íris em Doha, Djeddah e Abu Dhabi. Também transmitiu a mensagem Black Lives Matter após o assassinato de George Floyd, com carros Mercedes pintados de preto, uma imagem impressionante. O dilema é simples: deve-se cancelar a corrida de um país em guerra, enquanto os países com um histórico ruim em termos de racismo ou direitos LGBTQ+ mantêm a sua? Se cada infração resultasse em um cancelamento, o calendário seria consideravelmente reduzido. Nenhum esporte é perfeito, mas deve priorizar o respeito e o aprimoramento pessoal, deixando aos anfitriões a responsabilidade de cumprir esses padrões. No entanto, não é segredo para ninguém que a F1 atraiu parceiros ricos e continuará a crescer financeiramente, mesmo que isso signifique ignorar as críticas feitas desde o início. Ecologia: uma questão de escolha As preocupações ambientais aumentaram significativamente nos últimos anos, e a F1 se comprometeu a atingir a neutralidade de carbono até 2030. Esse plano prevê, entre outras coisas, o uso de motores a combustível sintético fabricados a partir de recursos renováveis, o que reduziria a dependência de combustíveis fósseis e alinharia o esporte às expectativas contemporâneas. No entanto, o calendário cada vez mais cheio vai contra esses objetivos. Desde 2016, a temporada conta regularmente com mais de 20 corridas, o que obriga as equipes e o pessoal a viajar constantemente. Este ano não é exceção: as cinco primeiras provas já se estendem por três continentes, do Oriente Médio a Imola, na Europa, e depois do outro lado do Atlântico, em Miami. Mais voos significam mais emissões, o que compromete a ambição da neutralidade de carbono. Algumas corridas estão sujeitas a restrições sazonais (por exemplo, as provas asiáticas evitam os períodos de monção), mas outras, como os três Grandes Prêmios da Península Arábica, poderiam ser agrupadas no início do ano, o que reduziria as viagens.
Repensar a distribuição continental A ideia de agrupar as corridas por região não é nova, mas torna-se urgente à medida que o calendário se enche. Um modelo semelhante ao da antiga série GP2 Asia, em que todas as etapas asiáticas eram disputadas consecutivamente, poderia funcionar para a F1. Imagine uma temporada que começasse no Bahrein, Jeddah e Abu Dhabi, continuasse na Europa durante o verão, voltasse à Ásia após a estação chuvosa e terminasse com provas na América do Norte e do Sul, com uma final espetacular no Brasil. A implementação de tal estrutura seria difícil, mas muitos observadores acreditam que a F1 deve resolver essas questões logísticas e éticas o mais rápido possível.