A Fórmula 1 submete os pilotos a intensas exigências físicas, obrigando-os a lidar com acelerações e desacelerações rápidas, bem como curvas em alta velocidade, mantendo ao mesmo tempo uma concentração e habilidade extremas. Quão extremas podem ser essas forças g?
Quando um piloto faz uma curva a 250 km/h e sente seu corpo pressionado contra o assento com a força de um trem de carga, ele vive uma aula de física em tempo real. O termo “G”, abreviação de gravidade, quantifica essa força: um G equivale à força de atração que sentimos quando estamos em pé na Terra, o peso que conhecemos em nossa vida cotidiana. Tudo o que é superior a isso é um impulso positivo, tudo o que é inferior, até o vácuo em gravidade zero, é uma queda negativa. Em uma corrida de Fórmula 1, a dança incessante de aceleração, frenagem e curvas em alta velocidade mantém os pilotos em um estado constante de 2 a 3 G durante a maior parte da volta. No entanto, os momentos mais brutais desse esporte podem atingir seis G, um nível comparável ao impulso de um dragster. A infame curva nº 8 do antigo circuito do Grande Prêmio de Istambul é um exemplo perfeito: a mais de 250 km/h, os pilotos sofrem cerca de cinco G por quase quatro segundos, um período que supera as forças máximas de dois segundos observadas nas zonas de frenagem mais difíceis.
Sobreviver a uma pressão tão incessante não é uma questão de pura vontade; isso exige um programa de treinamento rigoroso focado no pescoço, o elo mais vulnerável do corpo no cockpit. Os pilotos prendem uma “base” com peso a um dispositivo semelhante a um capacete, fixam-na a um elástico preso à parede e, em seguida, puxam contra a resistência enquanto estão sentados num banco. Ao ajustar a distância em relação à parede, podem trabalhar os músculos frontais, laterais ou posteriores do pescoço. Quando um treinador intervém, a faixa é mantida na altura da testa e o piloto deve resistir à tração. Alguns atletas deitam-se de lado, deixando um peso suspenso numa faixa fixada na cabeça, enquanto outros utilizam máquinas especializadas que comprimem alternadamente a cabeça em quatro direções, forçando o pescoço a contrair-se sem qualquer movimento. «Os músculos do pescoço, que sustentam a cabeça, adaptam-se e desenvolvem-se com uma secção ligeiramente maior de fibras musculares», explica Xavier Feuillée, diretor da 3.2.1 Perform, que trabalha com Esteban Ocon. As forças G extremas são registadas de forma particularmente impressionante durante os acidentes. Na primeira volta do Grande Prêmio do Bahrein de 2020, o carro de Romain Grosjean desacelerou a uma velocidade estimada em 53 G, fazendo com que seu corpo de 70 kg pesasse momentaneamente cerca de 3,8 toneladas quando bateu na barreira — uma sobrevivência possibilitada pelo sistema de proteção Halo. No entanto, este número está longe de ser o recorde mais assustador deste desporto. Em 1977, durante os treinos para o Grande Prémio da Grã-Bretanha, David Purley sofreu uma falha catastrófica quando o seu acelerador bloqueou. Ele bateu de cabeça em um muro, passando de 173 km/h a zero em apenas 66 cm, sofrendo uma força impressionante de 180 G. Esse impulso teria feito seu corpo pesar cerca de 12,6 toneladas. Milagrosamente, Purley sobreviveu, mas passou um ano se recuperando de múltiplas fraturas e um grave ferimento na cabeça.
Esses números, colocados em um contexto mais amplo, destacam o quão extraordinárias são as forças em jogo na F1. Um piloto de caça L-39 Albatros da época da Guerra Fria podia sofrer até nove G durante uma manobra apertada, enquanto o astronauta Alan Shepard sentiu os 11 G mais altos já registrados durante a reentrada atmosférica do Mercury-1. A título de comparação, a decolagem de um avião comercial submete os passageiros a cerca de 1,4 G, e mesmo as montanhas-russas mais intensas atingem um pico de cerca de três G.
A história das forças G na Fórmula 1 não se resume a simples números; ela é um testemunho da engenharia humana, do condicionamento incessante dos atletas e das tecnologias que salvam vidas, mantendo os pilotos presos aos seus assentos quando o mundo os leva além dos limites habituais.