Com três pilotos no grid de largada e um Grande Prêmio em casa de volta ao calendário, a França ganha visibilidade na Fórmula 1, embora muitas personalidades francesas já façam parte há muito tempo do seleto círculo desse esporte. Poucas horas antes do Grande Prêmio da França em Paul Ricard, encontramos o jornalista Lionel Froissart.
Quando o rugido dos motores ecoou pela primeira vez nos tranquilos campos da Normandia em 1968, Lionel Froissart, então adolescente, já estava prestes a se tornar a voz que mais tarde comentaria os momentos mais emblemáticos desse esporte. Ele se lembra do dia em que ele e seu avô pegaram o ônibus para Les Essarts, para assistir a algumas centenas de metros dali ao espetacular acidente de Jo Schlesser – uma experiência que transformou uma curiosidade passageira em uma obsessão permanente pela velocidade, pelo perigo e pelo espetáculo das corridas automobilísticas.
O percurso de Froissart até à sala de imprensa foi tudo menos convencional. No início dos anos 80, chegou à Auto Hebdo sem um currículo oficial, aceitando todas as tarefas, desde entregar correio a sessões fotográficas, enquanto alimentava a sua paixão pelo karting com artigos freelance. «Eu irritava o editor-chefe com os meus “ferros”», brinca ele, mas sua perseverança valeu a pena: cobrir os circuitos de karting permitiu que ele tivesse um lugar na primeira fila para assistir às estreias de futuras estrelas da F1, como Ayrton Senna, Alain Prost e Ivan Capelli. Essas primeiras relações forjaram uma rede de confiança que mais tarde lhe abriria as portas da categoria rainha.
Agosto de 1985 marca uma virada quando Froissart envia um artigo sobre a primeira câmera embarcada no Grande Prêmio de Nürburgring, apresentando ao vivo o histórico Renault de François Hesnault. O artigo chamou a atenção de Jean-Pierre Delacroix, editor esportivo do jornal Libération, que na época planejava lançar uma estação de rádio independente. Embora a estação nunca tenha visto a luz do dia, esse encontro permitiu a Froissart conseguir um cargo permanente na seção esportiva do Libération, onde cobriria a Fórmula 1 em tempo integral de 1986 a 2015.
Além das manchetes, o dia a dia de Froissart durante um fim de semana de corrida se assemelha à lista de tarefas de um repórter de campo: chegadas matinais, discussões incessantes no paddock, busca por histórias que serão notícia no dia seguinte. Ele sempre faz questão de ficar à beira da pista no sábado, quando os pilotos aceleram ao máximo, e assistir às primeiras voltas da primeira curva no domingo, se o tempo permitir. A combinação de observações no local e networking nos bastidores permitiu-lhe captar o lado humano de um desporto frequentemente definido pela velocidade. Sua dedicação à Fórmula 1 não tem suas raízes em uma família de entusiastas do automobilismo, mas naquele dia marcante, feito de fogo e barulho, em que o espetáculo cru desse esporte dava a impressão de ver cavaleiros medievais enfrentando a morte. Hoje, após quase quatro décadas a narrar a evolução deste desporto, desde as primeiras câmaras ao vivo até à era digital, Lionel Froissart continua a ser uma figura incontornável do paddock, testemunhando como uma curiosidade insaciável e uma vontade de realizar todas as tarefas, por mais modestas que sejam, podem transformar uma infância modesta numa carreira jornalística lendária.
O rugido dos motores agora rivaliza com um fluxo constante de manchetes, podcasts e transmissões ao vivo. Antigamente, um fã de Fórmula 1 podia contar com três jornais, um único canal de televisão e duas estações de rádio para acompanhar o esporte. Hoje, dezenas de jornalistas disputam para cobrir cada canto do paddock, e os pilotos, com agendas mais lotadas do que nunca, muitas vezes precisam recusar pedidos de entrevista simplesmente porque não têm mais tempo no dia. A proliferação da mídia não é uma perda nostálgica, mas um sinal claro de que a atração por esse esporte não para de crescer. Entre as inúmeras histórias que se desenrolaram sob os holofotes, um momento permanece gravado na minha memória. Foi em 1988, no Japão, quando Ayrton Senna conquistou seu primeiro campeonato mundial. Entrei na sala de conferência de imprensa e o vi fazer um gesto para um grupo de técnicos de televisão, dizendo: ” Ah, esse cara me acompanha desde o karting”. Essa observação foi dirigida a mim, lembrando-me há quanto tempo eu acompanhava sua ascensão. Eu o parabenizei, consciente da importância do evento e do vínculo único que ele havia criado com a Honda naquela temporada. Esse encontro pessoal, tendo como pano de fundo um título histórico, continua sendo uma lembrança marcante de uma época em que esse esporte parecia íntimo, apesar de seu alcance global.
Minha própria trajetória se estende por quatro décadas de automobilismo, desde a intensidade bruta das corridas de kart até o mundo cintilante da Fórmula 1. Nunca vi nada mais bonito sobre quatro rodas do que a competição feroz que caracteriza esses eventos. Essas primeiras batalhas de karting deixaram uma impressão indelével em mim, moldando a paixão que ainda me anima hoje.
A história da Fórmula 1 teve momentos sombrios, e o dia 1º de maio de 1994 é um deles. Eu estava no ar para o Canal Horizon, a filial africana francófona do Canal+, quando ocorreu o acidente de Ayrton Senna. O carro parou, a cabeça dele se moveu um milímetro e eu soube imediatamente que estava tudo acabado. Não sei explicar por quê, mas algo me dizia que era fatal. Eu estava perto da cabine dos comentaristas brasileiros, onde seu irmão Leonardo tentava obter informações. Enquanto eles falavam de um braço quebrado, eu estava convencido de que a situação era muito mais grave. Foi um momento inesquecível e doloroso. Quando me perguntaram como minha amizade com Senna havia começado, lembrei-me de nosso encontro durante sua primeira corrida europeia, no campeonato mundial de karting em Le Mans. Entreguei-lhe algumas fotos para dar aos seus patrocinadores no Brasil e depois o reencontrei no Festival de Fórmula Ford em Brands Hatch, pouco antes de ele decidir voltar para o Brasil. Minha primeira temporada completa na F1 foi em 1984, o mesmo ano da estreia de Senna. Desde então, não encontrei nenhum piloto que se equiparasse à abordagem, ao estilo ou à intensidade emocional de Senna. Admiro Lewis Hamilton, não porque ele se pareça com Senna, mas porque não se pode comparar os dois. Quando Hamilton corria na GP2, dei-lhe algumas fotos antigas de Senna no karting; ele ficou encantado, pendurou-as no quarto e isso criou uma pequena ligação pessoal, mesmo que não tivesse nada a ver com o legado de Senna. Hamilton é o piloto que mais me entusiasmou desde Senna, graças ao seu empenho e ao seu estilo de corrida agressivo e determinado. Ele mostra um lado sensível por baixo de uma aparência forte, mas também tem fraquezas evidentes. Nunca gostei da era Michael Schumacher. Não sou fã da Ferrari e Schumacher parecia correr para si mesmo, isolado. Quando enfrentava um adversário do mesmo nível, nem sempre ganhava. Ele era um grande piloto, mas sua falta de emoção tornava difícil apreciá-lo. Eu gostava dos pilotos que quebravam essa monotonia, como Juan Pablo Montoya, Mika Häkkinen e Fernando Alonso, que representavam um verdadeiro desafio para Schumacher. Jacques Villeneuve, por outro lado, nunca transmitia muita emoção, especialmente em relação ao pai; parecia um pouco artificial.
A nova geração me entusiasma: Max Verstappen, Pierre Gasly, Esteban Ocon, Charles Leclerc… Todos eles têm um ótimo desempenho. Muitas vezes me criticam por não gostar dos pilotos franceses, mas o que importa é a personalidade, não a nacionalidade. Um piloto pode vir de qualquer lugar, até mesmo de Marte, se tiver esse carisma extra. Não sou fã de Romain Grosjean; ele sabe que não o acho muito empolgante, embora reconheça sua velocidade. Ele tem defeitos, mas seu ritmo bruto é inegável. Quando me perguntam se sou mais apaixonado pelos pilotos do que pelos carros e pela mecânica, admito que sou indiferente às máquinas em si. Enquanto um carro não se move, não me interessa. Minha fascinação reside nos pilotos e na competição, pois são eles que escrevem a história da corrida. Como um jornalista ganha a confiança de um piloto? Não se trata tanto de buscá-la, mas de ser confiável. Escrever para uma revista lhe dá a liberdade de ser preciso, manter confidências e evitar trair a fonte. A confiança também vem de uma verdadeira paixão pelo esporte. Hoje, não tenho uma amizade próxima com os pilotos, apenas relações profissionais, na maioria boas, especialmente com os pilotos franceses, com exceção do que mencionei, que é suíço. Antigamente, podíamos nos encontrar fora dos circuitos, jogar tênis com Alain Prost ou fazer uma partida de cartas. Hoje, as interações se limitam amplamente ao contexto profissional. Também sou apaixonado por boxe. Ao cobrir automobilismo, as 24 Horas de Le Mans, esqui e boxe para o Libération, vejo um ponto em comum: o perigo. Seja um boxeador no ringue ou um piloto na pista, todos arriscam suas vidas. Não é uma atração mórbida, é a emoção do confronto direto com o perigo. Até mesmo Mike Tyson, no auge de sua carreira, sentia esse medo e aceitava o risco, assim como os pilotos.
A Fórmula 1 está de volta ao Paul Ricard, um circuito que me traz muitas lembranças. Fui lá pela primeira vez em 1975, fazendo carona, dormi na garrigue e acordei às oito da manhã em um painel de publicidade com vista para as curvas em S da Verrerie. Um jornalista que encontrei por acaso, Charles-Bernard Adreani, me deu um crachá para o paddock — as coisas eram muito mais simples naquela época. Assisti a um Lotus, o de Ickx ou Peterson, sair dos boxes para o aquecimento, sentindo o vento soprar. Mais tarde naquela noite, ainda pedindo carona, um R16 TX parou para me dar uma boleia. A motorista era Lella Lombardi, que acabara de sair do Grande Prêmio, e a experiência foi inesquecível.