Grande Prêmio da Áustria de 2002 – Uma dupla vergonha

Grande Prêmio da Áustria de 2002 – Uma dupla vergonha
Crédito: FanF1

Em 2002, no circuito A1-Ring, Michael Schumacher terminou à frente do seu companheiro de equipa Rubens Barrichello, após uma controversa ordem da Scuderia, um duro golpe para o brasileiro que levou a FIA a reforçar as suas regras em matéria de ordens de equipa. Com a aproximação do Grande Prêmio da Áustria, a FanF1 relembra esse episódio crucial da história da F1.

Durante a temporada de 2002, Michael Schumacher voltou a ser a referência. Recém-coroado com o seu quarto título mundial, o alemão estava prestes a igualar o recorde de Juan Manuel Fangio. Apelidado de «Barão Vermelho», dominava a competição, sendo apenas o seu irmão a derrotá-lo na Malásia nas cinco primeiras corridas. Com quatro vitórias já conquistadas, Schumacher estava em uma classe à parte. Às vésperas do Grande Prêmio da Áustria no A1-Ring (antigo Red Bull Ring), ele tinha uma vantagem de 21 pontos, o equivalente a duas vitórias, já que uma vitória valia dez pontos naquele ano, sobre seu rival mais próximo, Juan Pablo Montoya. Determinado a prolongar seu domínio no circuito da Estíria, o tetracampeão esperava liderar a corrida, mas foi seu companheiro de equipe Rubens Barrichello quem se mostrou o mais rápido. O brasileiro conquistou a pole position, relegando Schumacher ao sexto lugar.

Aproveitando ao máximo sua pole position, “Rubinho” fez a melhor largada e liderou a corrida, seguido de perto por seu companheiro de equipe. Schumacher foi ultrapassado por seu irmão na 25ª volta, mas retomou a liderança cerca de vinte voltas depois. Na frente, Barrichello parecia tranquilo, liderando a corrida, enquanto as duas Ferraris perseguiam as duas Toyotas, que já estavam fora dos pontos. Os retardatários não atrapalharam o poleman, o que impediu Schumacher de reduzir a diferença. A oito voltas do final, chegou uma mensagem de rádio do chefe da equipe, Jean Todt, pedindo a Barrichello que deixasse Michael passar para proteger sua vantagem no campeonato. “Deixe Michael passar pelo bem do campeonato”, dizia a mensagem. Determinado a vencer, Barrichello inicialmente ignorou a ordem, mas na última curva, ele diminuiu a velocidade, permitindo que o Barão Vermelho conquistasse a vitória. Um ano antes, o mesmo pedido havia sido feito. Em 2001, Barrichello recebeu a ordem de deixar Schumacher passar para o segundo lugar, uma decisão que já havia gerado críticas severas, e o episódio de 2002 permaneceu fresco na memória, pois a vitória estava em jogo. Os espectadores nas arquibancadas expressaram sua raiva vaiando a hierarquia da Ferrari por mais uma vez sacrificar seu piloto brasileiro em benefício de Schumacher. Após a corrida, Schumacher agradeceu ao seu companheiro de equipe, convidando-o até mesmo a subir no degrau mais alto do pódio e entregando-lhe o troféu em sinal de protesto. A Ferrari foi então multada em um milhão de dólares, não pela ordem da equipe em si, mas por violar o protocolo do pódio. Na entrevista pós-corrida, o piloto natural de São Paulo disse que não teve escolha, pois acabara de renovar seu contrato com a equipe de Maranello: «Acabei de assinar um novo contrato de dois anos com a Ferrari. Estou num bom momento, estou me tornando um piloto melhor e vou ganhar mais corridas. Michael me deu o troféu; vou levá-lo para casa hoje à noite.»

Dez anos depois, durante uma aparição em 2012 no canal de televisão brasileiro TV Globo, Barrichello voltou a falar sobre o incidente e suavizou sua posição, afirmando que a ordem não tinha nada a ver com seu contrato, mas se recusando a revelar o motivo exato. «Foram oito voltas infernais. Não posso dizer o que foi dito. Não se tratava do meu contrato, mas de algo mais geral. Senti isso como uma ameaça que mudou a minha perspetiva. Eu só queria correr», afirmou. Algumas corridas depois, Schumacher conquistou seu quinto campeonato, igualando o recorde de Fangio e se tornando o piloto mais jovem a conquistar o título em uma temporada. Livre da pressão do título, o alemão demonstrou fair play ao ceder a vitória ao seu companheiro de equipe. Na corrida de Indianápolis, no final daquele verão, enquanto liderava, Schumacher diminuiu a velocidade na reta, permitindo que Barrichello se aproximasse. Os dois Ferraris correram lado a lado, e Schumacher tirou o pé a poucos metros da linha de chegada para permitir que seu companheiro de equipe passasse em primeiro. A imagem foi impressionante, e o brasileiro finalmente conquistou a vitória que lhe escapara alguns meses antes. “Hoje, Michael me retribuiu o favor”, disse Barrichello, embora parecesse um pouco cético.

A controvérsia levou a FIA a alterar o regulamento, proibindo “instruções da equipe que possam influenciar o resultado de uma corrida”. No entanto, as equipes continuam a usar mensagens de rádio codificadas para sinalizar a um piloto que ele deve ceder a posição. No Grande Prêmio da Alemanha, a Ferrari indiretamente pediu a Felipe Massa para deixar Fernando Alonso passar, dizendo: “Fernando é mais rápido que você”. A mensagem foi clara, e a Scuderia foi novamente criticada, desta vez recebendo uma multa de 100 mil dólares.