No programa “Les fous du volant” transmitido pela Eurosport, Sébastien Bourdais relembra sua passagem pela Fórmula 1 na Toro Rosso (hoje AlphaTauri). Após os primeiros testes em Barcelona, o piloto francês disse ao seu companheiro de equipe: “Estou morto”, ciente de que um pesadelo estava prestes a começar.
Quando o império Red Bull se interessou pelos Estados Unidos, não comprou apenas um piloto, comprou uma marca. Sébastien Bourdais, recém-coroado com quatro títulos consecutivos na Champ Car (2004-2007) e um título na F3000 em 2002, era o embaixador franco-americano ideal. O palmarés deste piloto de 44 anos era impressionante: uma vitória como novato na Newman Haas em 2003, três vitórias nessa temporada e uma reputação que já o tornara um ídolo do marketing tanto nos Estados Unidos quanto no mercado francês de bebidas energéticas, recentemente legalizadas. O cálculo da Red Bull era simples. Junte um campeão consagrado a uma equipe Toro Rosso em ascensão e você terá um líder capaz de vender a equipe enquanto aprende os truques do ofício. Após três dias de testes em Jerez no início de 2008, a equipe italiana contratou Bourdais, esperando que sua experiência compensasse a dependência da equipe em relação ao viveiro de talentos da Red Bull. «Quando me contrataram, eu disse-lhes: “Se acham que fiz um bom trabalho, tudo bem, mas não esperem milagres, porque este não é o carro certo para mim. Se precisam da minha experiência para desenvolver o carro, estou dentro”», recorda Bourdais. A Toro Rosso respondeu: «Ótimo, precisamos de um líder. “
O que o departamento de marketing não previu foi um esporte que, na época, havia se tornado cada vez mais implacável para os pilotos que contavam com a capacidade de ajuste dos carros. Em 2008, o esporte já estava se afastando dos pneus slick, e a corrida pela aerodinâmica significava que o chassi deixava pouco espaço para ajustes feitos pelos pilotos. Bourdais descreveu o STR2B que herdou como uma “loteria”, uma plataforma na qual os engenheiros ainda podiam brincar com as barras estabilizadoras e os amortecedores para moldar a manobrabilidade. O STR3, que o sucedeu, eliminou essas alavancas, deixando um carro que “simplesmente tinha que ser aceito”.
Os resultados foram inequívocos. Bourdais conquistou seus primeiros pontos com um sexto lugar na Austrália, uma corrida em que apenas oito carros cruzaram a linha de chegada, mas esse foi o ponto alto de uma temporada que rendeu apenas quatro pontos no total. Seu companheiro de equipe, o jovem Sebastian Vettel, acumulou 35 pontos e terminou em oitavo lugar no campeonato. “Foi um desastre”, admite Bourdais, “o pior ano e meio da minha carreira”. O ano seguinte só piorou as coisas: Vettel mudou-se para a Red Bull, o novato suíço Sébastien Buemi tomou o lugar de Bourdais, e este último conquistou apenas dois pontos contra seis de Buemi. Para Bourdais, as restrições técnicas eram mais do que uma simples nota de rodapé nas estatísticas, elas representavam um duro golpe pessoal. “Nos carros de F1 modernos, o nível de ajuste é muito limitado. A aerodinâmica é fundamental e, se você não evoluir, você sai atrasado no grid”, explica ele. Ele acrescenta que a falta de liberdade mecânica dava a impressão de que o carro era “uma loteria” e o fazia “passar pela humilhação de ser destruído em público diante da imprensa”. Após um teste desanimador em Barcelona, ele disse à sua esposa Claire: “Estou morto”.
A história de Bourdais agora serve como um aviso sobre como o valor de mercado de um piloto pode entrar em conflito com a evolução técnica incessante de um esporte. O talento do francês era inegável, mas numa época em que o chassis se tinha tornado uma caixa fechada, mesmo um tetracampeão podia ficar preso na grelha de partida, vendo o carro que deveria pilotar escapar-lhe.