Ayrton Senna, a lenda que nos deixou muito cedo

Ayrton Senna, a lenda que nos deixou muito cedo
Crédito: FanF1

Verdadeiro ídolo brasileiro, sua poderosa aura continua viva no coração dos brasileiros e dos fãs da F1. Falecido durante o “fim de semana do horror” de 1994, ele deixou uma marca indelével neste esporte graças ao seu imenso talento, suas batalhas acirradas na pista e seu compromisso com a segurança.

Quando o céu se abriu sobre Mônaco em 1984, um brasileiro de 23 anos transformou uma chuva torrencial em uma verdadeira demonstração que ainda hoje define o mito de Ayrton Senna. Depois de se classificar em décimo terceiro lugar com um modesto Toleman-Hart, o novato encharcado pela chuva subiu no pelotão, alcançou o segundo lugar atrás do McLaren de Alain Prost e começou a ganhar três segundos por volta. A corrida foi interrompida antes que ele pudesse assumir a liderança, mas esse desempenho lhe rendeu seu primeiro pódio e anunciou a chegada de uma nova força na Fórmula 1. O talento de Senna em pista escorregadia não era fruto do acaso. No ano seguinte, agora pela Lotus, ele conquistou sua primeira vitória em Estoril, Portugal, conquistando a pole position e liderando a corrida do início ao fim em pista molhada. Apenas Michele Alboreto conseguiu ficar a menos de um minuto do Lotus-Renault preto e dourado, destacando o incrível domínio de Senna em circuitos chuvosos.

A ascensão do brasileiro continuou ao longo de 1987, culminando com a sua transferência para a McLaren a pedido do seu companheiro de equipa Alain Prost. Esta parceria, apresentada pelo chefe da equipa Ron Dennis como «os dois melhores e mais profissionais pilotos do mundo», rapidamente se transformou numa das rivalidades mais intensas deste desporto. Em 1988, o MP4/4, pintado com as cores de uma famosa marca de cigarros, dominou a temporada, e a vitória de Senna em Mônaco simbolizou seu domínio: uma pole position com 1,5 segundo de vantagem sobre Prost, uma vantagem de mais de cinquenta segundos na corrida e um aviso por rádio pedindo que ele diminuísse a velocidade antes de um acidente evitado por pouco em Portier. Depois de cruzar a linha de chegada, Senna descreveu essa experiência como “entrar em outra dimensão”, dando uma ideia do espírito de um piloto que parecia correr além da percepção consciente. A batalha pelo campeonato naquele ano foi decidida no último Grande Prêmio, no Japão. Uma largada ruim relegou Senna ao décimo sexto lugar, mas ele recuperou posições, ultrapassou Prost e conquistou o título apesar de ter menos pontos, graças a uma peculiaridade da regra da época que consistia em contar apenas os onze melhores resultados, o que o colocou no topo da classificação.

A rivalidade com Prost intensificou-se em 1989. O “pacto de não agressão” firmado no Grande Prêmio de San Marino foi quebrado quando Senna ultrapassou seu rival francês na curva de Tosa na segunda largada, um ato que Prost mais tarde classificou como traição. As relações entre os dois tornaram-se cada vez mais frias, uma tensão que marcaria a história do esporte por anos.

Além das estatísticas (três campeonatos mundiais, 41 vitórias, 65 pole positions), o legado de Senna perdura na memória coletiva dos fãs de todo o mundo. Seu domínio intrépido da chuva, sua busca incessante pela perfeição e seu duelo apaixonado com Prost fizeram dele uma lenda cuja história ainda ressoa, quase três décadas após sua trágica morte.

A temporada de 1989 decorreu de forma semelhante à do ano anterior, com os dois carros da McLaren a dominarem o campeonato e o confronto final a ter lugar mais uma vez no Japão. Desta vez, Alain Prost precisava de uma vitória para conquistar o título, caso contrário a decisão seria adiada para a última corrida na Austrália. Prost fez uma largada perfeita, mas Ayrton Senna ficou perto o suficiente para lançar um ataque na chicane Casio. A manobra de ultrapassagem resultou em uma colisão: Prost foi forçado a abandonar a corrida, enquanto Senna conseguiu retomar a corrida pela pista de emergência. Embora Senna tenha cruzado a linha de chegada em primeiro lugar, a FIA o desclassificou, atribuindo o campeonato ao seu rival. Muitos consideraram isso uma injustiça para o “Mágico Senna”, que suspeitava que o presidente da FISA, Jean-Marie Balestre, um compatriota francês, favorecia seu compatriota.

No ano seguinte, Prost mudou-se para a Ferrari e foi substituído na McLaren por Gerhard Berger. Senna voltou a disputar o título no Japão, mas uma decisão tomada após as qualificações o deixou furioso. Ele havia conquistado a pole position, mas descobriu que o lugar na grelha de partida reservado ao piloto mais rápido estava do lado errado da pista. Incapaz de mudar essa disposição, Senna largou irritado e perdeu sua vantagem da pole position para seu ex-companheiro de equipe. Na primeira curva, ele o bateu deliberadamente — o que admitiu anos mais tarde —, tirando os dois carros da corrida e permitindo que Senna conquistasse seu segundo campeonato mundial. Em 1991, Senna continuou sua trajetória, acumulando vitórias, embora a temporada tenha começado com um incidente dramático no Brasil. Em seu país natal, ele finalmente subiu ao degrau mais alto do pódio após uma batalha intensa, apesar de um carro bloqueado na sexta marcha e uma caixa de câmbio com defeito. Uma dor intensa no ombro obrigou o carro médico a levá-lo de volta aos boxes e, no pódio, ele teve dificuldade para levantar o troféu de vencedor, mobilizando suas últimas reservas de energia para comemorar sua vitória diante de uma multidão em delírio. Enquanto isso, a Williams reduzia a diferença graças a uma eletrônica de ponta, e a luta pelo título voltou ao Japão, desta vez contra a Williams de Nigel Mansell. Senna largou bem, assumiu a liderança e, depois que a tentativa frustrada de ultrapassagem de Mansell deixou o britânico na brita, conquistou seu terceiro campeonato.

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O piloto dominante dominou

Nas duas temporadas seguintes, Senna foi superado pela Williams-Renault, cujos sistemas eletrônicos e suspensão lhe davam uma clara vantagem. Em 1992, ele entrou para a história em Mônaco, conquistando sua quinta vitória neste circuito e igualando o recorde de Graham Hill após um duelo acirrado com a Williams de Mansell. Em Spa, ele salvou Éric Comas, vítima de um acidente, afastando o carro inconsciente do francês da chicane do ponto de ônibus e desligando o motor com o cortador de circuito, um gesto que Comas posteriormente descreveu como salvador. Em 1993, último ano de Senna na McLaren, ele realizou feitos notáveis, apesar da falta de velocidade de seu carro em relação ao Williams de Alain Prost, que estava de volta à F1. Ele venceu cinco corridas, incluindo uma nova vitória em Mônaco e uma vitória espetacular em Donington, onde realizou o que muitos consideram a mais bela primeira volta da história do Grande Prêmio. Partindo da quarta posição, ele perdeu brevemente a liderança para Karl Wendlinger, mas reagiu rapidamente, ultrapassando Wendlinger, Michael Schumacher e Damon Hill antes de ultrapassar Prost na penúltima curva. Ele então cruzou a linha de chegada com quase um minuto e vinte segundos de vantagem sobre Hill, consolidando seu legado como um dos maiores pilotos da história do esporte.

Apesar de seu desempenho mágico, Senna não conseguiu vencer Williams e Alain Prost, que conquistou seu quarto e último campeonato. Após a saída do francês, Prost deixou a McLaren para se juntar à equipe britânica.

Uma temporada cheia de reviravoltas

Em seu primeiro ano com a equipe campeã, Senna conquistou a pole position no Brasil e em Aida, mas teve que abandonar as duas corridas. Em Imola, a equipe decidiu reconstruir o carro do zero, substituindo vários componentes do chassi de Senna. O fim de semana começou promissor para os pilotos, mas uma série de incidentes rapidamente acabou com seu otimismo. Na sexta-feira, o brasileiro Rubens Barrichello sofreu um acidente espetacular e, no dia seguinte, o novato Roland Ratzenberger morreu durante as qualificações.

No domingo, ainda havia dúvidas sobre a continuidade da corrida após as tragédias do fim de semana. A largada foi dada, mas uma colisão precoce entre JJ Letho e Pedro Lamy levou à intervenção do carro de segurança. Quando a corrida recomeçou, Senna liderava, seguido de perto por Michael Schumacher, até que o desastre aconteceu. Na sexta volta, o Williams-Renault de Senna entrou em alta velocidade na curva Tamburello. Ele bateu no muro de concreto e ficou preso no carro. A corrida foi interrompida e os médicos correram para o local, iniciando os cuidados de emergência enquanto um helicóptero pousava nas proximidades. Enquanto os esforços de reanimação continuavam, Senna deu um suspiro e seu corpo se curvou. O ex-médico da FIA, Sid Watkins, lembrou-se mais tarde desse momento como o instante em que sentiu a alma do brasileiro deixá-lo. “Não sou crente, mas foi nesse momento que senti isso”, disse ele em um documentário sobre o tricampeão. Senna foi então transportado para o hospital de Bolonha, onde faleceu algumas horas depois.

O retorno ao Brasil e as homenagens

A notícia de sua morte paralisou o Brasil: os estádios ficaram em silêncio, os torcedores gritavam “Senna! Senna!” e os jogadores desabavam em campo, em choque. Em 4 de maio de 1994, o corpo de Senna voltou ao Brasil para o funeral. Do aeroporto ao centro de São Paulo, cerca de dois milhões de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre. Seu rival de longa data, Alain Prost, compareceu à cerimônia, em sinal de respeito, apesar de suas ferozes batalhas na pista. Prost até ajudou a carregar o caixão e acompanhou a família até o cemitério do Morumbi, onde agora repousa a lenda. O ícone brasileiro continua no centro do debate sobre o maior piloto da história da Fórmula 1. Jeremy Clarkson, por exemplo, comparou Senna ao seu próprio herói, Gilles Villeneuve, no programa “Top Gear”: “Honestamente, nunca fui um grande fã de Senna; Villeneuve era o meu favorito. Mas depois de assistir a horas de imagens, percebi que Villeneuve era espetacular em muitas ocasiões, enquanto Senna era espetacular sempre que pegava no volante.” Senna deixou o desporto aos 34 anos, juntando-se ao grupo de pilotos que deixaram uma marca indelével, incluindo o seu ídolo Juan Manuel Fangio.