Desde que a Liberty Media assumiu o controle da F1, a empresa americana está repleta de ideias para restaurar o prestígio desse esporte, mas ainda estamos longe de alcançar esse objetivo.
O entusiasmo que antes caracterizava a Fórmula 1 parece cada vez mais distante, um sentimento que ressurgiu de forma flagrante durante o Grande Prêmio do Brasil neste fim de semana. Após uma temporada 2021 que contou com 22 corridas consecutivas e uma final dramática, embora controversa, o esporte parece agora estar lutando com sua própria identidade.
No domingo, o único duelo real na pista aconteceu na última volta, quando Fernando Alonso e Sergio Pérez disputaram o pódio. O desempenho do espanhol lembrou o que a série ainda pode oferecer, mas o resto da corrida foi praticamente sem incidentes, destacando um problema maior: o domínio de Max Verstappen evidenciou as fraquezas estruturais da fórmula atual. As qualificações ilustraram esse problema. Enquanto Verstappen instintivamente evitava a linha de saída dos boxes e assumia a liderança, a sessão destacou o absurdo dos pilotos ficarem na fila e bloqueando uns aos outros. O formato tradicional de eliminação Q1-Q2-Q3 ainda está em vigor, mas muitos acreditam que ele não serve mais ao esporte. Vozes experientes, incluindo a de Alonso, pediram um retorno a uma corrida de sprint de uma única volta ou a uma sessão aberta de uma hora permitindo tentativas ilimitadas, opções que preservariam o mérito e, ao mesmo tempo, injetariam interesse visual. A experiência das corridas de sprint também não conseguiu despertar entusiasmo. Seu único interesse reside na velocidade pura, mas agrega pouco valor esportivo e dá a impressão de ser uma cópia redundante do Grande Prêmio principal. Se um campeonato de sprint fosse introduzido, especialmente com a perspectiva de um grid invertido, o esporte correria o risco de reduzir seu legado a um formato artificial de reality show.
Durante a corrida em si, os regulamentos técnicos de 2022 rapidamente revelaram suas limitações. Os pneus de Lando Norris se deterioraram após apenas uma volta, ilustrando claramente como a busca por uma redução da turbulência aerodinâmica produziu carros mais pesados, mais volumosos e muito mais exigentes em termos de pneus. A vantagem esperada, ou seja, corridas mais disputadas, foi ofuscada pelo fato de que o desgaste dos pneus agora dita a estratégia mais do que as habilidades dos pilotos.
Mesmo a prova de resistência das 8 Horas do Bahrein, concebida com o objetivo de promover a durabilidade, evidenciou as desvantagens do atual modelo de ultrapassagem dependente do DRS. Embora o DRS possa facilitar as ultrapassagens, ele também diminui a importância de uma ultrapassagem verdadeira, um problema que o circuito brasileiro, apesar de sua beleza, não conseguiu superar.
No geral, este desporto parece estar a afastar-se dos seus valores fundamentais. Os fãs se deparam com uma temporada que se assemelha a uma série de resultados previsíveis, pontuados apenas por alguns lampejos ocasionais de genialidade, como o duelo entre Alonso e Pérez. À medida que o calendário se prolonga e os regulamentos continuam a ser alterados, aumenta o risco de a Fórmula 1 se tornar uma vitrine do excesso técnico, em vez de uma competição automobilística.
Se as autoridades não enfrentarem esses problemas sistêmicos (revisando os formatos de qualificação, reavaliando o conceito de sprint e encontrando um equilíbrio entre a inovação aerodinâmica e a longevidade dos pneus), a Fórmula 1 corre o risco de continuar a afastar-se do seu público tradicional, deixando o desporto com máquinas espetaculares, mas com um sentido de espetáculo em declínio.